27/12
2016



Mas afinal, como é possível mensurar o fracasso? Quando comecei esse blog, era 2008, quase 9 anos atrás, considerando que estamos há poucos dias de 2017.
Minha ortografia não era das melhores, ainda não é, meu humor era menos aguçado que hoje e, confesso que o humor negro me tirava sempre boas risadas.

Esse blog nunca foi nada além de uma tentativa de arrecadar dinheiro, apenas como segundo plano o de compartilhar todas as minhas besteiras. Parece que o plano principal teve efeito proporcionalmente inverso, pois meu custo com esse site por ano, nunca foi menos de R$ 150,00 – nesses mais de oito anos, pelo menos R$ 1.200,00. O lucro? Talvez uns R$ 300,00.

As Aventuras de GtOkAi… Que aventuras eram essas? Eu era um adolescente que vivia trancado em um quartinho sentado no computador, é possível existir aventura sentado?

Ironicamente, as aventuras e reviravoltas da minha vida, começaram exatamente quando abandonei esse blog.

 

Marinha do Brasil

A primeira etapa da minha vida “em pé”, foi na Marinha. Pouco mais de 1 ano, auxiliar de instrução na Escola de Formação de Reservistas Navais, era uma grande responsabilidade, algo que me faltou em muito no passado.

Nessa fase, tive um amadurecimento gigantesco, foi a transição de “muleque”/adolescente para homem. Foi como um que sai de lá em 2011.

Por longos meses, me questionei o que então eu buscaria por ora, quais seriam meus objetivos dali em diante? Se não sou capaz de traçar o que eu almejo, estou fracassando sem me dar conta disso?

Não foi com meus esforços diretos, apenas com minhas idéias ainda malucas que engessei-me na mais ingratas das ocupações: Empresário.

Exatos 11 meses, exatos 0 reais. E experiência foi tudo adquirido por esse período, o problema é que a meta, não principal, pois era única, era exclusivamente ganhar dinheiro – deu-se fracassada. Deveria eu dizer “novamente”?

Com uma visão muito pequena do mundo, embora o meu ego me sussurrasse a todo momento que não existiria ninguém ao meu redor com minha inteligência e capacidade, eu novamente estava sem metas, sendo guiado pela maré do acaso.

Foi uma dessas ondas que me levou a tentar um projeto “Vendas de sites rápidos e baratos”. Eramos 4 sócios, logo chamamos mais um, que no fim se tornou meu único sócio.

Mais um ano sem dinheiro, um primeiro relacionamento realmente sério e então as coisas começaram a ficar mais claras.

Na medida que os sócios iam desistindo da ideia, eu ia sobrevivendo e tentando fazer a empresa dar certo. Não por ideal ou nada do tipo, era exclusivamente por falta de opção, que mais tarde começou a dar seus primeiros frutos.

O primeiro carro realmente meu,  primeiras viagens bancadas exclusivamente por mim que não fosse as praias do litoral paulista, uma maior estabilidade no relacionamento (convenhamos que sem dinheiro, sem amor).

Comecei a introduzir em meu âmago: “Sou um empresário” e na medida que eu ia internalizando essa condição, começava novamente a traçar meus planos, sem muitas expectativas já que duas décadas e alguns anos até aqui e nada de planos se concretizarem.

Foram momentos bons, momentos ruins, ou apenas momentos… Aquele lapso de tempo que é difícil avaliar se as coisas estão boas ou ruins, me lembro de trabalhar por horas e horas todos os dias sem ver as pessoas ao meu redor fazer o mesmo, inclusive para mim sempre foi esse o motivo dos momentos ruins: comprometimento (a falta dele).

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Foi em 2014 que realmente tive o primeiro indício que com muito trabalho e sorte, qualquer pessoa é capaz de mudar sua vida. Através de pessoas próximas, tive a oportunidade de fazer parte de uma segunda empresa em outro estado. As viagens foram constantes, embora seja difícil pessoas próximas a mim acreditar, mas até mesmo um bimotor tentamos comprar para ganharmos tempo e conforto. Lembro-me do preço: 250 mil dólares, quando o dólar ainda era cotado em ~2,55. Perdemos, mas o contrato continua guardado comigo, afinal, ter um avião com 23 anos é algo para poucos.

Eu percebi que a princípio, era primeiro necessário convencer a todos do seu sucesso para então você alcança-lo, é meio que um estelionato social, se a outra parte não estiver convencida que pode se beneficiar com você, ela não irá te beneficiar. O engraçado é eu ter aprendido isso através do PUA que se perdeu no meio disso tudo entre 2009 e 2011.

fake it until you make it

Acredito que a pior queda, é quando você pensa que será difícil cair. No meio do trajeto da queda você se pergunta “É sério mesmo isso?”. E ela aconteceu.

Nessa etapa da minha vida, eu morava sozinho já há pouco mais de 1 ano, realizei diversos sonhos como ter mais de um carro na garagem, ter minha casa e minhas coisas. Ter minha TV LCD com 40 e tantas polegadas, ter uma geladeira de inox com aquelas teclas azuis no painel frontal e diversas outras realizações, fosse elas materiais ou não. Por longos períodos, eu sempre me perguntava: Era isso então que eu queria? Uma cama de casal em uma casa sozinho, sendo dono de mim mesmo, tendo o que eu quero, tendo o mínimo de status social (principalmente financeiro – onde não era incomum a pergunta: “Você é rico, né?”). Eu novamente não sabia quais eram minhas metas, eu novamente me permiti levar apenas pelo acaso, pela sorte e pelos outros. Teria alguma vez eu tomado uma decisão importante na minha vida, baseado apenas em mim?

Aos poucos foi tudo se perdendo com a falta de dinheiro, crise financeira e uma execução judicial por notas fiscais frias, fui vítima. Até mesmo meu relacionamento de mais de 3 anos. Me lembro vagamento das imagens, mas perpetua em minhas memórias as falas daquela noite (na verdade, nem ao menos me lembro se era noite, talvez seja um modo para deixar mais poético):

- Mas a gente vai ficar sem sair de novo hoje?
- Sim amor, estou sem dinheiro ainda.. Só quarta-feira.
- Mas eu não venho para cá para ficar olhando para sua cara.
- Então arruma suas coisas que vou te levar embora.

Confesso que não a deixei ir embora de ônibus pois não tinha o dinheiro da passagem. Havia acontecido um bloqueio judicial na conta e me deixado sem nenhum centavo para usar. Mas na verdade mesmo, se o bloqueio não tivesse acontecido, teria pouco dinheiro da mesma forma.

Essa vida de solteiro me fez muito bem para a cabeça, comecei a tomar pela segunda vez as rédias da minha vida, na medida que eu tentava apenas demonstrar uma superação superficial de um relacionamento de longa duração, afinal, a superação se deu se me lembro bem, 2 dias após o término definitivo.

Foi então, no meio de amigos em um grupo que conheci minha atual namorada, que confesso estar incomodado de chama-la de “namorada”, mas na verdade é que ainda não sobrou aqueles 5 ou 15 mil  reais para uma aliança legal e um casamento apenas no civil.

No começo parecia meio impossível, eu em São Paulo, ela em outro estado, mil quilômetros de distância, como eu poderia tentar um relacionamento com uma mulher que morasse tão longe? Fora de cogitação.

Pelo menos era que eu esperava, até que ela foi me conhecer no ano novo, exatos 1 ano atrás eu a esperava na plataforma da rodoviária do Tietê.

A gente acredita que esse negócio de amor a primeira vista, amor forte e bla-bla-bla não existe, mas é sério, esse negócio não só existe como é uma coisa muito louca.

Mesmo com o dinheiro ficando cada vez mais escasso, dei meu jeito e consegui vir visita-la duas vezes em menos de 30 dias, a distância parecia ser algo fora da realidade, até que percebi que o fundo do poço estava muito próximo, quando tomei em 24 anos, a primeira decisão “100% por mim mesmo”, eu iria sair de São Paulo.

As desculpas para amigos e familiares era o padrão: Qualidade de vida, muito trânsito, muito estresse… De fato não menti uma única vez, eu já não aguentava mais aquele estado, só de ver essa foto acima e pensar que pode ser São Paulo, já me aperta o coração, ao mesmo tempo que me entristeço por saber que estou longe da minha família e amigos e, adivinhe só por que? Dinheiro.

O ano de 2016 foi definitivamente o ano que menos ganhei dinheiro na última meia-década, ou por assim dizendo, o ano que ganhei menos dinheiro em minha fase de trabalhador, mas mesmo assim consegui o suficiente para arrumar o carro, coloquei todas minhas coisas dentro, e parti para uma viagem de 12 horas sozinho. Cá estou.

Se eu pudesse me recordar do nascimento desse blog, eu jamais imaginaria que com 25 anos esse blog ainda existiria e eu estaria escrevendo uma reflexão pós-criação de quase 9 anos enquanto minha mulher dorme no quarto ao lado.

Era esse meu plano? Eu estaria me vendo como um cara de sucesso? Talvez se eu pudesse ter um flashback e me visse voando em um bimotor enquanto mexia em um tablet e conversava com meu sócio que passava mal pelo suco de uva que havia tomado, eu poderia dizer: “Caramba, não vejo a hora de chegar nessa fase da minha vida.”, mas certamente se esse flashback acontecesse no dia de hoje, o que eu estaria vendo? Uma garrafa de coca-cola usada para tomar água, vazia ao lado do modem, uma xícara de chá usado para tomar café logo ao lado de uma cafeteira expressa, daquelas da Pilão, adaptada para usar pó normal, e uma pilha descarregada do mouse que eu troquei pouco antes de escrever esse texto. O que eu estaria vendo além desses objetos, esse blog e a parede bem suja que quanto mais olho, mais me incomoda? Talvez orgulho por ver esse blog ainda vivo? Talvez preocupação por acreditar que nada na minha vida deu certo para eu ainda insistir nisso?

Pois bem, devo concordar que praticamente nada na minha vida deu inteiramente certo, embora eu possa usufruir daquele tal do estelionato social e fracionar qualquer história da minha vida para que eu pareça um cara de sucesso:

- Eu sou um ex-militar
- Eu já tive um avião
- Eu inclusive aprendi a pilotar avião, mas não terminei o curso
- Já fui sócio de uma empresa com quase 100 funcionários
- Já viajei muito, já fui pra fora e tudo mais
- Eu já.. eu fui… eu era…. Eu.

Por mais que eu tente, o EU sempre estará ligado ao fracasso eminente. Se eu talvez tivesse a consciência que não importa o que eu fosse fazer, daria apenas meio certo e a outra metade seria sempre um grande fracasso, eu talvez pararia no meio. E é ai que entra o paradoxo, é do meu fracasso que eu crio a oportunidade para o meu próximo fracasso.

Sem o meu fracasso, eu não consigo partir para minha próxima meta que dará apenas meio certo. O que eu seria sem o meu fracasso? Ainda seria um militar ganhando mil e pouco por mês? Ainda seria um metido a empresário que faz sites baratos tentando ficar rico? Estaria agora andando ou mesmo pilotando um avião para algum destino certo que eu ganharia dinheiro? Estaria eu com minha ex-namorada no sofá da minha sala assistindo Netflix? Eu poderia estar em muitos lugares e posições, mas eu com certeza não estaria onde estou hoje: Em outro estado com minha namorada-mulher e feliz, meu único objetivo e meta hoje.

Pode parecer estranho, de fato é, mas aguardo o sucesso do meu próximo fracasso para eu atingir meu próximo meio-sucesso.

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